09 outubro 2007

Quando o portão se fecha...

Hoje foi o meu primeiro dia de aulas na prisão-escola. Um dia cheio de emoções, de cheiros, de sensações.

O dia amanheceu solarengo, mas com nevoeiro acumulado nos vales. Eu acordei às 6:30 para poder preparar tudo a tempo. Estava ansiosa e preocupada em chegar a horas porque não conhecia ainda todas as instalações.

Sempre a correr, lá cheguei quase 10 minutos antes da hora, como convém a quem vai às aranhas.

-Está nevoeiro - anunciaram as minhas colegas - escusas de ir com pressa.
-Ah, pois é!... Já nem melembrava disso... - disse eu, ao mesmo tempo que tentava arranjar a calma suficiente para ficar sossegada à espera que o nevoeiro se fosse embora.

Quando há nevoeiro não tiram os presos das celas, não vá um escapar-se pela vegetação densa da vasta e bonita quinta onde se situa o estabelecimento prisional.

Ficámos as cinco professoras em amena cavaqueira, a aproveitar o solinho quentinho da manhã e o cheiro a pinheiro húmido, até que, 45 minutos depois da hora prevista, chegaram os alunos. Todos homens, com idades entre os 17 e os 25 anos, todos de calça e casaco azul e t-shirt branca, a grande maioria de raça negra. Diferem no calçado, que vai da bota de pedreiro à sapatilha de marca.

Nós entrámos atrás deles para o recinto exterior às salas. O edifício das salas tem a forma de U e um portão de grades fecha esse U, que passa a ser um Ó. :-) Dentro do Ó é o "recreio" - com menos de 1oo metros quadrados.

Primeiro choque: o som do portão de grades a fechar-se nas minhas costas. Foi uma sensação horrível e totalmente inesperada. Por um segundo senti-me presa. Senti que se quisesse sair dali a correr não poderia. Depois lembrei-me que só ia ficar fechada por 45 minutos, o tempo até ao próximo intervalo, e passei à acção.

Nem consigo imaginar a angústia de saber-se preso dentro do mesmo lugar durante anos...

A primeira turma (11º ano) tinha dois alunos, sem material escolar, sem ganas nenhumas para nada e com muito sono. Ainda assim, depois de reclamarem por eu não me ter ficado pela apresentação e tchau-tchau-bye-bye, lá consegui que começassem a escrever e a participar na aula.

Hora do recreio: os alunos ficam todos dentro do Ó. Se quiserem lanchinho da manhã, têm que ir prevenidos . Ao passar em direcção ao portão (que se abriu, ufa!), senti um cheiro esquisito no ar, que não era só de tabaco...

Segunda turma: 10º Ano, 22 alunos, quase todos provenientes do 9º ano de um curso EFA - esses modernos que validam as supostas competências da malta, porque este país precisa é de gente diplomada, mesmo que sem bases sólidas.

Testaram-me ao limite: perguntaram se o que via correspondia ao que esperava encontrar, se eu dava aulas há muito tempo e se era a primeira vez que dava aulas ali, pediram para ir à casa-de-banho, aldrabaram a hora da formatura para ver se conseguiam sair mais cedo... Não houve abébias para ninguém e eu mantive-me firme e hirta como uma barra de ferro. Vamos lá ver se fiz bem... E a seguir às apresentações, tomem lá uma ficha de trabalho. Protestaram, mas eu expliquei-lhes que naquela sala ninguém estava preso. Só lá estava quem queria estar.
Nesta turma custou-me particularmente aguentar o cheiro concentrado a falta de banhos frequentes...

Hora do almoço, ouço um aluno lamentar-se: Outra vez batata cozida...
Como percebeu que eu ouvi, explicou-me: Estou cá há um ano e meio e desde que entrei, nunca mais comi uma batata frita. Contam os mais antigos que a fritadeira se avariou há uns cinco ou seis anos e desde então, nunca mais a arranjaram ou compraram outra. A mim, trazem-me batatas de pacote, mas não é a mesma coisa...

Eu cá, da próxima vez que comer batatas fritas caseirinhas, salgadinhas, deliciosas, vou apreciá-las ainda mais do que é costume.

À saída da prisão, há que abrir a bagageira do carro para mostrar ao guarda que não levamos connosco nenhum presente indesejado.

11 comentários:

António Lopes disse...

Que relato poderoso! Até senti um arrepio na espinha pela descrição tão pormenorizada que nos faz sentir mesmo lá...

Continua com essa força e vais dar-te bem, com certeza.

Mila disse...

Olá!
Bem...imagino a sensação só de ouvir o portão fechar!!Mas ficas presa por uma boa causa:)Gostei muito de passar aqui no teu cantinho!
Beijinhos.

Luis Servo disse...

Trabalho numa escola de periferia, com alunos carentes, muitos deles com pais que estão na prisão. Só quem passou por uma situação dessas sabe da densidade do que você está falando. Grande relato.

APO (Bem-Trapilho) disse...

ena que experiencia amiga!!
muita foça e pulso firme é o que te recomendo! já agora uma molita para a turma dos 22! eheheheh...

quanto aquela boca de o governo querer licenciar tudo a torto e a direito é bem verdade, para depois não haver emprego para ninguém! eu enquanto estudante lá fui arranjando uns trabalhitos mal pagos na minha área (jornalismo), mas depois de concluido o curso fui trabalhar de secretaria e foi se quis fazer alguma coisa, porque jornalismo e afins nem ve-los! agora sou dona de casa há sei lá quanto tempo porque emprego que me pague o infantário da filha, os meus transportes e alimentação não aparece!

bjinhos

Mónica...Cine Cuentos. disse...

Ay!!! que horrible que se cierre la puerta!!! Socorro.

Me gustó tu blog, besos

APO (Bem-Trapilho) disse...

ahhh e o "glup" parece-me saído dos quadradinhos do Patinhas e companhia, não? Adorei a imagem, fez-me visualizar perfeitamente a cena!
bjo grande

Marta Carapuço disse...

Adorei a tua descrição, a ilustração está deliciosa! Estou arrepiada... apesar de já estar frio, não é do frio. Consegui mesmo imaginar-te lá dentro.
Esta experiência vai marcar-te certamente... faz com que ela te marque da maneira mais positiva possível. Que te ajude a crescer ainda mais por dentro. Que consigas que eles se lembrem que no nosso pensamento só nós é que colocamos as grades...
Sei que te vais dar muito bem!
Boa sorte!

Helena disse...

Bem... o que te posso dizer???CORAGEM para continuares essa tua missão, acredito que não seja fácil, mas são estes grandes desafios que nos ajudam a "crescer" enquanto educadores.
Mil beijocas
Helena

Margaridices disse...

Também eu já dei aulas num estabelecimento prisional de alta segurança e realmente o fechar do portão foi uma das coisas que mais me marcou. No meu caso havia também um muro enorme. Sem dúvida uma experiência diferente... coisas boas, outras nem por isso, homens maus, outros que depois descobrimos que afinal têm coração...
Bjs
Margarida

paulina disse...

olá célia!
es muuy lindo el dibujo. Yo a veces me siento presa en mi lugar de trabajo, tantas horas frente a la computadora, quisiera salir y difsrutar del sol, del aire...
mucha suerte!
Beijinhos.

Belém disse...

Na minha próxima aula vou lembrar-me concerteza deste relato.