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25 setembro 2008

As Bruxas da Serra da Fóia


Há que tempos que vos queria falar deste livro. Já foi editado há uns meses e foi escrito por uma amiga minha. Li-o ainda antes de ter sido editado porque ela mo pediu. Provavelmente se assim não fosse nunca o teria lido, porque é a história de uma criança que foi negligenciada, maltratada e violada. O tema arrepia-me e, quando há notícias sobre casos relacionados com este assunto na tv, eu desligo porque não quero saber. Porque dói ouvir as maldades que se fazem a crianças inocentes, indefesas e totalmente dependentes dos “crescidos” e sentir-me impotente para fazer algo que resolva o problema e amenize o sofrimento de quem é violentado.

No entanto, li o livro do princípio ao fim com a sensação de nem sequer ter respirado. A história é verdadeira e é impressionante. Impressiona a frieza que pode haver em adultos, o desdém que eles podem ter pelos outros, a sua incapacidade de amar, a sua falta de compaixão... E impressiona também a doçura com que uma criança pode olhar para a sua existência por mais áspera que ela seja, apesar da objectividade com que consegue descrever os factos.
A menina desta história sobrevive porque se aconchega sempre nas memórias que tem dos contos de fadas que lhe foram sendo contados por um tio. O texto é escrito pela mão de uma pessoa adulta mas baseado nos escritos da própria protagonista. A história é brutal, mas possui momentos de infinita ternura e magia.

Eu própria me senti violentada por ter que ler o texto, mas não consegui parar de lê-lo. No fim percebi que é importante conhecermos o que pode passar-se à nossa volta, ou mesmo connosco e compreender que, por mais árdua que seja a nossa vida, por mais obstáculos que se nos deparem, é sempre possível ultrapassá-los e construir uma existência feliz e plena de bondade para com os outros.

(As Bruxas da Serra da Fóia foi escrito por Maria Emília Pires e editado pela Animamundi.)

09 outubro 2007

Quando o portão se fecha...

Hoje foi o meu primeiro dia de aulas na prisão-escola. Um dia cheio de emoções, de cheiros, de sensações.

O dia amanheceu solarengo, mas com nevoeiro acumulado nos vales. Eu acordei às 6:30 para poder preparar tudo a tempo. Estava ansiosa e preocupada em chegar a horas porque não conhecia ainda todas as instalações.

Sempre a correr, lá cheguei quase 10 minutos antes da hora, como convém a quem vai às aranhas.

-Está nevoeiro - anunciaram as minhas colegas - escusas de ir com pressa.
-Ah, pois é!... Já nem melembrava disso... - disse eu, ao mesmo tempo que tentava arranjar a calma suficiente para ficar sossegada à espera que o nevoeiro se fosse embora.

Quando há nevoeiro não tiram os presos das celas, não vá um escapar-se pela vegetação densa da vasta e bonita quinta onde se situa o estabelecimento prisional.

Ficámos as cinco professoras em amena cavaqueira, a aproveitar o solinho quentinho da manhã e o cheiro a pinheiro húmido, até que, 45 minutos depois da hora prevista, chegaram os alunos. Todos homens, com idades entre os 17 e os 25 anos, todos de calça e casaco azul e t-shirt branca, a grande maioria de raça negra. Diferem no calçado, que vai da bota de pedreiro à sapatilha de marca.

Nós entrámos atrás deles para o recinto exterior às salas. O edifício das salas tem a forma de U e um portão de grades fecha esse U, que passa a ser um Ó. :-) Dentro do Ó é o "recreio" - com menos de 1oo metros quadrados.

Primeiro choque: o som do portão de grades a fechar-se nas minhas costas. Foi uma sensação horrível e totalmente inesperada. Por um segundo senti-me presa. Senti que se quisesse sair dali a correr não poderia. Depois lembrei-me que só ia ficar fechada por 45 minutos, o tempo até ao próximo intervalo, e passei à acção.

Nem consigo imaginar a angústia de saber-se preso dentro do mesmo lugar durante anos...

A primeira turma (11º ano) tinha dois alunos, sem material escolar, sem ganas nenhumas para nada e com muito sono. Ainda assim, depois de reclamarem por eu não me ter ficado pela apresentação e tchau-tchau-bye-bye, lá consegui que começassem a escrever e a participar na aula.

Hora do recreio: os alunos ficam todos dentro do Ó. Se quiserem lanchinho da manhã, têm que ir prevenidos . Ao passar em direcção ao portão (que se abriu, ufa!), senti um cheiro esquisito no ar, que não era só de tabaco...

Segunda turma: 10º Ano, 22 alunos, quase todos provenientes do 9º ano de um curso EFA - esses modernos que validam as supostas competências da malta, porque este país precisa é de gente diplomada, mesmo que sem bases sólidas.

Testaram-me ao limite: perguntaram se o que via correspondia ao que esperava encontrar, se eu dava aulas há muito tempo e se era a primeira vez que dava aulas ali, pediram para ir à casa-de-banho, aldrabaram a hora da formatura para ver se conseguiam sair mais cedo... Não houve abébias para ninguém e eu mantive-me firme e hirta como uma barra de ferro. Vamos lá ver se fiz bem... E a seguir às apresentações, tomem lá uma ficha de trabalho. Protestaram, mas eu expliquei-lhes que naquela sala ninguém estava preso. Só lá estava quem queria estar.
Nesta turma custou-me particularmente aguentar o cheiro concentrado a falta de banhos frequentes...

Hora do almoço, ouço um aluno lamentar-se: Outra vez batata cozida...
Como percebeu que eu ouvi, explicou-me: Estou cá há um ano e meio e desde que entrei, nunca mais comi uma batata frita. Contam os mais antigos que a fritadeira se avariou há uns cinco ou seis anos e desde então, nunca mais a arranjaram ou compraram outra. A mim, trazem-me batatas de pacote, mas não é a mesma coisa...

Eu cá, da próxima vez que comer batatas fritas caseirinhas, salgadinhas, deliciosas, vou apreciá-las ainda mais do que é costume.

À saída da prisão, há que abrir a bagageira do carro para mostrar ao guarda que não levamos connosco nenhum presente indesejado.